![]()
Aquilo estava longe de ser um projecto simples e fácil... Eu vi logo isso mal comecei a subir as escadas, eram de cimento, mas tinham tanto verdete que metiam nojo, quando rodei as chaves da porta lembrei-me que aquilo ali, aquele sótão, era meu e só meu, os meus pais tinham-mo dado e obviamente que eu não o recusara... A minha ideia era arranja-lo e ir para lá viver, ia ser a mesma coisa que ser independente, porta exterior, cozinha fora do sótão, mas independente, e saída para a garagem e depois desta para o exterior da casa... Eu ia tornar-me senhora do meu nariz!!!
Mas as coisas por muito fáceis que nós as desenhemos, acabam sempre por nos trocar as voltas, o sótão era uma desgraça, caixas espalhadas, portas empenadas, lixo espalhado pelo chão, teias de aranha, e um tecto de madeira cheio de humidade, para não falar das loiças da casa-de-banho, as aranhas que habitavam aquele sótão antes de mim, já tinham ocupado os boieiros todos, e aquele verde musgo dava um aspecto mais nojento á situação, quis sentar-me mas a verdade é que não encontrei onde. Tinha que estabelecer um plano, mas nem sabia por onde começar... Aquilo ia ser mais difícil do que estava á espera e se estivesse sozinha iria demorar décadas...Então levantei o nariz, prendi o cabelo e peguei numa caixa, afinal tinha que começar por algum lado....

Nem sei se existem palavras para descrever a cara do meu primo quando entrou no sótão, foi uma mistura entre o arregalar os olhos numa expressão de assustado e um brilho de quem está disposto a arriscar num trabalho ali.
Quando eu lhe contei a minha ideia de remodelar aquilo para criar uma habitação para mim, ele acrescentou logo: " Não sejas tola, vamos fazer aqui uma espécie de esconderijo para nós... vivíamos aqui nas ferias e assim eu aos fins-de-semana."
Foi dai que surgiu a ideia de criar uma habitação colectiva.
Ele nesse campo foi mais corajoso que eu, pegou logo numa data de tralha e começou a organizar as coisas, pegou numa folha de papel e organizou as coisas estabeleceu medidas de métodos, nesse dia começamos a dar forma ao nosso trabalho...

Vendo-os ali a dormir, naquele sono tão calmo um sentimento forte e perturbador começa a incomodar-me como se a vida que vivemos hoje, não fosse vir a ser mesma que vamos viver amanha, os meus sentimentos pelo Luciano afinal não estão enterrados, estão aqui e hoje, mas não são como dantes, porque até o amor mais forte morre um dia…

A Verónica torceu o nariz quando viu o estado do sótão, parecia uma snobe perante o cenário de confusão, o mais irónico era que ela sempre estivera longe de ser snobe, ela era hippy, e como tal um espírito livre, longe de se preocupar com os bens materiais, mas a verdade era que aquela confusão a estava a assustar e a impressiona-la.
- Parece difícil, não é? – Perguntou o Vítor subindo as escadas.
- Vocês têm a certeza que conseguimos fazer isto? – Perguntou a Verónica, a sua voz estava calma.
- Tenho, os sonhos tem que ser adquiridos pelo nosso esforço… - Acrescentei.
- E por onde começamos? – Perguntou a Verónica. Desta vez ela já não estava tão assustada.
A pergunta dela surtiu um efeito marcante, ficamos ali entre as caixas a olharmo-nos nos olhos, foi como se estivéssemos a transmitir confiança num só olhar.
Alguns meses depois as paredes ganharam aspecto e a casa alguma forma, foi como se as atitudes tivessem sortido efeito. Caixa a caixa, fomos levando tudo para o lixo, depois de muito suor só o esqueleto das paredes estava em pé, mas ainda faltava fazer muita coisa…

Acabamos, e as ultimas ideias tido á pressão do momento deram formação á habitação que temos hoje, cada um contribuiu com o que podia, mas o melhor foi a disputa pelas camas antes de pintarmos as paredes, boas recordações que nem o melhor filosofo usando todas as suas teses e teorias pode explicar, foram momentos inesquecíveis, aqueles que nós os cinco passamos… E aconteça o que acontecer, ninguém nos vai tirar esses momentos…
Um a um, pouco a pouco, ajudamo-nos uns aos outros e criamos a nossa casa, e podemos dizer que aquilo é nosso, pois nasceu do nosso suor e da nossa imaginação. Nós criamos o nosso pequeno império, colorimos aquilo do mesmo modo que demos cor á nossa vida…
E lá estávamos nós os cinco, cada um com o seu pincel e o seu balde de tinta e também o seu pequeno espaço… lembro-me como se fosse hoje:
“ – O teu cor-de-rosa está a aproximar-se muito do meu verde. Nem penses que me vais roubar o meu espaço… Um metro e meio de parede é muito pouco para um espírito tão aberto como o meu… – Reclamou o meu primo.
- Espírito aberto? – Perguntou o Dinis. – Inventares motores para bicicletas não é suficiente para te considerares um espírito aberto…
- Ele sente-se um génio!!! – Gozou a Verónica rindo, o meu primo não deixou de lhe dar um empurrão…”
Não sei como acabou aquela conversa, só sei que acabamos todos pintados de várias cores

Sou céptica, acredito em muita pouca coisa, sei que a morte é um das garantias da vida, da qual inevitavelmente nunca poderemos fugir…
Distingo o bem do mal, mas seria hipócrita se não assumisse, pelo menos perante mim mesma que a morte da Lara me aliviou, foi como se todos os fantasmas do meu passado tivessem encontrado a redenção que precisavam…
Para o Luciano foi diferente, apesar de trágico sei que ele também está aliviado, mas ao mesmo tempo triste, apesar de ter sugerido o aborto, ele mudou a mentalidade e agora já sentia carinho por aquele feto que a Lara esperava…
Ele não só perdeu o filho que queria matar, perdeu algo que era parte de si…